Harley Quinn
Uma faceta pop de Hermes
Harley Quinn toca piano. Ao menos, acredito que sim, quando eu tentava transcrever o que ouvia numa noite em claro. Amanhecido o novo dia, e transcrita a expiração, deixei-a na gaveta. Anos depois, vim a incluí-la como 3º movimento de uma Sonatina. Um movimento que intitulei "Hermes Polytropos”, dentro da obra que era composta por manifestações de outros Deuses: 1. Aurora e 2. Terpsikhore.
Exímia atleta, quando ainda era Harleen Quinzel, ela conservou sua destreza de ginasta junto ao Coringa. Sua ação como Harley Quinn, ou Arlequina, podia mesmo ser vista como uma hierofania de Hermes, mas em chave feminina e urbana. Uma “polytropia” que, agora, havia se inscrito em saltos, viradas bruscas, deslocamentos rítmicos e uma espécie de “humor perigoso” na articulação acrobática e nas dinâmicas inesperadas na partitura.
Há menções ao tema original do Batman (Danny Elfman), ao do Pica-pau (Kay Kyser) e ao motivo clássico de Psicose (Bernard Herrmann). O pica-pau, aliás, um pássaro hermético. Toda a peça, enfim, um scherzo, que também tributava a Sergei Prokofjew.
E é justo na combinação de astúcia, mobilidade extrema e ambiguidade moral que a epiclese “polýtropos” se liga ao Deus de mil voltas, o trapaceiro benevolente, o mestre dos atalhos.
Hermes não como mensageiro, então; mas como figura do truque, da trapaça lúdica e da teatralidade, a camada clown da Harley Quinn.
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